O que é cultura do estupro – A culpa não é da vítima

Pessoal

Eu sempre tomei muito cuidado e até evitei me declarar feminista por não conhecer a causa o suficiente, mas essa semana percebi que preciso usar a voz e espaço que tenho. Preciso, porque eu falo com mulheres, porque também sou mulher e sinto o mesmo medo e a mesma dor. Preciso porque uma garota de 17 foi estuprada por mais de trinta homens e a sociedade diz que a culpa é dela. Não, a culpa é de cada um dos homens que tocou nela sem sua permissão, cada um que compartilhou suas fotos, achou graça na sua dor e diz que ela mereceu. A culpa é todos que procuraram o vídeo e se excitaram com ele, de quem quis saber mais da vida dela, procurou familiares, expôs ainda mais. Da cultura do estupro que que age na nossa sociedade. De todos, menos dela.

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Acho que a melhor maneira é dividir o conhecimento que adquiri com o feminismo. A cultura do estupro é algo invisível mas presente na sociedade. É ela que transforma agressão em piada, que põe mulher de biquíni pra vender cerveja, que romantiza relacionamento abusivo e violências em novela, filme, série e na vida real. Que ensina aos homens que quando uma mulher diz não ele deve insistir até ela aceitar suas investidas, ou que ele pode continuar pois o não é só charme. Que sexualiza crianças, que diz que homem não se controla e é assim mesmo.

A cultura do estupro, tem tudo a ver com culpabilização da vítima, esse pensamento de que se algo ruim te acontece (e não só a consumação do ato sexual, toda violência física e psicológica e todo contato não consentido também) a culpa é sua. Da sua roupa, do lugar que você está, das escolhas que você fez na vida. E isso literalmente tira a culpa do agressor e a joga sobre a vítima. Em todas as vezes que a violência que essa menina sofreu foi noticiada, pessoas nos comentários disseram que a culpa foi dela. Tratam como uma consequência natural de suas escolhas. Violência, invasão, humilhação pública, ferimentos no corpo e na alma não são naturais.

A culpabilização da vítima acontece quando ao ouvir um caso de estupro as pessoas se perguntam o que ela vestia, onde estava, se havia ingerido álcool ou drogas, quantos parceiros ela teve e tudo que nós sabemos que não justifica ter o corpo violado. A culpabilização da vítima acontece quando uma mulher diz que sofreu violência e a polícia tenta fazer com que ela desista de denunciar, porque vai estar ‘estragando a vida deu um homem por uma bobagem’, porque realmente acreditam que é uma bobagem, que a vida dela não tem valor. Essa crença de que a vida da mulher vale menos, ou não vale nada comparada a do homem é misoginia, o ódio as mulheres. É o que leva homens a acreditar que tem direito sobre o corpo das mulheres. Eles tem certeza que mulheres só existem para servi-los, que nenhuma mulher presta. Homens que estupram não são doentes, são apenas pessoas que acreditam ter direito sobre corpos femininos e decidiram que sua vontade vale mais que a da mulher.

O machismo estrutural é o que garante aos homens o privilégio de não sentir medo. Mulheres sentem medo de serem atacadas, só porque são mulheres. Quando os homens acreditam que a vida delas não vale como a deles e que elas só existem para servir, o corpo delas se torna apenas um objeto sexual a ser usado quando houver oportunidade. Mulheres inconscientes, alcoolizadas ou sob efeito de medicamentos e drogas não conseguem distinguir e podem ser manipuladas em uma situação que jamais desejaram estar. Na cabeça de muito homem, ele tem direitos e pode usar a violência sexual para, além de satisfazer seus desejos, ‘ensinar uma lição’. O chamado estupro corretivo é usado com lésbicas, mulheres que terminaram relacionamentos, mulheres que denunciaram seus parceiros, mulheres que querem ter independência e trabalhar ou estudar fora, mulheres que se destacam no ambiente de trabalho ou estudos, mulheres que não deixaram a comida pronta, mulheres que não quiseram ter relações com seu parceiro, mulheres que recusaram uma investida masculina, mulheres que de alguma forma incomodaram homens.

Essa violência naturalizada é uma ameaça a todas nós. O que podemos fazer para impedir é defender e ensinar as outras. Muitas mulheres tem discursos machistas e praticam culpabilização da vítima por não ter conhecimento, para serem aceitas entre homens, por não conseguir se colocar no lugar da outra. Nós podemos desconstruir esse machismo e mostrar que a violência atinge a todas, e mesmo mulheres privilegiadas podem ser vítimas. Nós podemos mostrar para os homens de nosso convívio que não toleramos piadas com estupro, que não aceitamos ver fotos e vídeos que expõe mulheres, que saber de mulheres diminuídas e violadas nos atinge e machuca. Precisamos nos unir, pois homens não conseguem entender que o medo é por nosso corpo e nossa alma que podem ser violados a cada esquina. Nossos agressores podem ser qualquer homem, podem estar dentro de casa e ser quem confiamos. Para ser vítima, basta ser mulher.

Eu estou apoiando a causa Contra a Cultura do Estupro no meu avatar do Facebook, para mostrar seu apoio basta clicar aqui. Mas saiba que isso é um símbolo e apenas as atitudes reais vão trazer alguma mudança. Não dê risada de piadas que diminuem as mulheres só para não ser a chata do rolê. Não diga, concorde ou ouça calada quando alguém fala que ‘se ela estivesse em casa/estudando/na igreja/com uma roupa decente/não ficasse com tantos’ isso não teria acontecido, o estupro e a violência só acontecem porque um homem decidiu que a vida daquela mulher não vale nada. Se você é mulher, você é uma vítima em potencial por toda a vida. Tenha empatia pelas irmãs que sofrem com violência, defenda as mulheres e ensine o que puder.

Se você quer conhecer melhor o feminismo, eu separei alguns blogs que podem te ajudar aqui e aqui. São textos fáceis de entender e que me ajudam muito. Também recomendo esse texto na BBC em que a Nana Queiroz fala do estupro ignorado pela sociedade, o que não acontece em becos escuros e com desconhecidos, e infelizmente todas nós conhecemos uma garota que sofreu. Aquele cometido por conhecidos, familiares, amigos e companheiros, onde a vítima sequer tem consciência de que foi de fato um estupro, pois acha que suas atitudes levaram a isso. Meninas, se vocês não desejam, se vocês dizem não mesmo depois de ter falado sim e cara continua, é estupro. O post ficou bem maior do que esperava, mas esse assunto ainda tem muito a ser discutido.

Obrigada por sua leitura. Se você é homem, seja ferramenta de desconstrução para seus amigos. Aponte o que é errado e respeite as mulheres. Se você é mulher, eu te apoio mesmo sem te conhecer. Estou do seu lado e vamos juntas lutar por nossas irmãs.

Sobre Jéssica Ambrósio

Publicitária, bailarina e cacheada. Adoro escrever e estou descobrindo as delícias de viajar. Tudo no custo-benê, claro.

Comments

  1. Responder
    Um estudante qualquer

    Sou homem e as vezes fico pasmo de como alguém consegue culpar a vitima, inverter a culpa, o agressor acaba sendo protegido. Estou a procura de textos assim, pois minha Professora de Português concorda que se a mulher usa roupas curtas, ela está pedindo para ser atacada.

    1. Responder
      Jéssica Ambrósio

      Oi! Fiquei muito feliz com seu comentário e posicionamento. Realmente, as imposições do patriarcado fazem com que mesmo as mulheres reproduzam pensamentos machistas :/ Espero que o texto possa trazer a reflexão a outras pessoas. Obrigada por comentar, beijão!

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